RELATO TÉCNICO #002 – Lamúrias de um Viciado, MG Serra do Cipó
Data do Acidente: 29/06/2025
Local: Setor Lamúrias – MG
Acidentado:
Guia Responsável: ---------
Via: Lamúrias de um Viciado
Grau: 7b brasileiro
Estilo: Via de 2 enfiadas
Tipo de Acidente: Queda com impacto no platô – fratura exposta
1. Contexto
Durante o encerramento da Abertura de Temporada promovida pela AESC, o escalador (Joãozinho), experiente e residente em São Paulo, contratou os serviços de um(a) guia local para escalar a via Lamúrias de um Viciado, uma linha tradicional de várias enfiadas na região no setor G3.
2. Dinâmica do Acidente
O escalador progrediu normalmente pela primeira cordada, realizou a parada e iniciou a segunda cordada. Após costurar a primeira proteção da nova cordada, Escalador alcançou a segunda proteção, momento em que segurou diretamente a fita de dyneema da costura para passar a corda.
Esse procedimento, embora comum em escaladas esportivas e tradicionais, pode aumentar significativamente o risco quando feito de forma incorreta ou com má leitura do sistema. Durante esse movimento, a porta do mosquetão se abriu (o chamado "efeito porteira") e a corda saiu da proteção, resultando em uma queda severa.
O escalador quicou com os pés no platô abaixo e virou de cabeça para baixo, sendo então detido pela corda. Ele usava capacete, o que evitou lesões mais graves mas relatou imediatamente dor intensa, afirmando ter quebrado o pé.
3. Ferimento e Atendimento
Ao ser descido à base, foi constatada fratura exposta no tornozelo ou pé direito. As primeiras pessoas que estavam no local atuaram prontamente:
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A sapatilha foi cortada para aliviar a pressão e permitir avaliação da lesão.
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O membro foi mantido imobilizado manualmente para contenção da dor e evitar agravamento.
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Um grupo deslocou-se para buscar sinal de celular e acionar o resgate.
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Outra equipe foi buscar a maca.
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A evacuação foi feita com apoio de 10 a 15 pessoas, incluindo uma médica presente no evento.
Tempo estimado de resposta até a ambulância: cerca de 60 minutos.
4. Causa Provável
A dinâmica principal do acidente se deu por um movimento inadequado ao segurar diretamente a fita de dyneema da costura para clipar a corda, resultando na abertura da porteira do mosquetão (possivelmente por pressão ou torção). Com a corda desclipada e o trecho exposto da via, a queda se deu com impacto direto no platô.
5. Análise Técnica
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Fator de queda estimado: Possivelmente alto, considerando a altura entre parada e segunda proteção.
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Erro técnico primário: Interação incorreta com o sistema de costura. Segurar diretamente na fita pode desencadear a abertura da porteira, especialmente em costuras com mosquetões de arame ou gate reto sem trava.
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Importância do posicionamento: O trecho exige que não haja queda — fator crítico que deve ser sempre reforçado por guias e em capacitações.
Nota: Este tipo de situação reforça a importância do ensino adequado sobre formas seguras de clipar, o uso de costuras estendidas quando necessário e a avaliação da exposição real da linha durante a escalada tradicional.
6. Sobre o corte da sapatilha
A equipe no local optou por cortar a sapatilha para aliviar pressão sobre o inchaço. Embora sapatilhas possam servir como contenção leve (por compressão), em caso de fratura exposta com edema significativo, a remoção ou corte controlado pode ser benéfica para evitar isquemia ou compressão vascular.
No entanto, é fundamental que essa decisão:
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Seja tomada com base em sinais claros de comprometimento circulatório ou dor intensa;
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Seja feita com apoio técnico ou conhecimento básico em APH (Atendimento Pré-Hospitalar) remoto.
7. Como o acidente poderia ter sido evitado
1. Clipar a corda sem segurar a costura
O erro crítico foi segurar a fita da costura para facilitar o clip, uma prática arriscada que pode forçar a porteira do mosquetão a abrir, especialmente se for de aramido ou se houver rotação. A forma segura de clipar a corda é segurando apenas o mosquetão inferior, mantendo os dedos longe da abertura da porteira.
Regra prática: Nunca colocar os dedos entre a corda e a porteira do mosquetão. Se estiver difícil clipar, melhor reposicionar-se ou usar uma costura mais longa.
2. Usar costuras mais longas em trechos expostos
A segunda proteção após a parada costuma ser mais crítica, pois o escalador ainda está com pouco “amortecimento” de corda solta. Uma costura mais longa ou uma alça extensível poderia ter reduzido a chance de o mosquetão virar ou travar em posição ruim, o que é um dos gatilhos para desclipagens acidentais.
3. Avaliar melhor o risco de queda naquele trecho
Sabendo que o trecho é naturalmente exposto, o escalador poderia ter:
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Adicionado uma costura redundante próxima à parada.
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Parado para descansar e clipar com mais precisão, mesmo que demorasse mais.
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Pedir a ajuda da guia para avaliar o melhor tipo de costura ou estratégia naquele ponto.
4. Treinamento técnico e reciclagem
Mesmo sendo um escalador experiente, o acidente mostra que hábitos técnicos precisam ser revisados constantemente. Manter-se atualizado, buscar feedback de outros escaladores e fazer clínicas técnicas de segurança pode evitar a repetição de práticas arriscadas.
8. Considerações Finais
Não houve indício de falha técnica ou negligência por parte do(a) guia. O acidente decorreu de uma combinação de decisão técnica do escalador e exposição da via.
Fica o alerta sobre a necessidade de formação constante, inclusive entre escaladores experientes. Também reforçamos a importância da capacitação em APH em ambientes remotos e protocolos de evacuação eficientes, como demonstrado pelo grupo presente.
Autoria: Fator de Queda | Contribuição: Comunidade local
Contato para complementações: fatordequeda01@gmail.com
Sergio Ricardo
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